Sem vez para poliomielite

O Ministério da Saúde divulgou recentemente que cerca de 300 municípios brasileiros estão com cobertura vacinal abaixo de 50% para a poliomielite – doença infecto-contagiosa aguda, causada pelo Poliovírus.

Esse vírus pode infectar crianças e adultos por via fecal-oral – contato direto com as fezes ou com secreções expelidas pela boca das pessoas infectadas – e provocar ou não paralisia. Uma vez que a infecção ataca o sistema nervoso, os neurônios motores são destruídos provocando paralisia flácida em um dos membros inferiores. O último caso registrado no Brasil ocorreu entre 1989 e 1990. Pouco tempo depois, o país recebeu da Organização Mundial da Saúde (OMS) o certificado de erradicação da doença.

A poliomielite ocorre com maior frequência em crianças menores de quatro anos, por isso é extremamente importante vaciná-las até cinco anos, o que não aconteceu com o designer José de Arimatéia Gomes Silva. Aos 43 anos, hoje ele convive com as sequelas da doença.

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Aos três anos de idade teve paralisia infantil – talvez a última geração a ter poliomielite – e teve as duas pernas comprometidas. “Eu era muito pequeno, estava no interior da Bahia com minha família quando passei a ter sintomas semelhantes da gripe, como febre alta, mal-estar, dor de cabeça e delírios. Naquela época, década de 70, as pessoas não ligavam muito para nada, havia pouca informação e a vacina não era tão divulgada como é hoje. Lá também não tinha saneamento básico – o que pode explicar a propagação do vírus”, lembra.

Seu irmão mais velho – assim como ele – também não tomou a vacina e não contraiu a doença. Quando sua mãe voltou para São Paulo procurou ajuda de alguns médicos para iniciar seu tratamento.

O tempo passou e há 20 anos José descobriu teve poliomielite. “Antes eu tratava sem saber o que era de fato, e a forma como descobri a doença mexe comigo até hoje. Certa vez estava em uma clínica de reabilitação cheio de esperança por acreditar que meu caso tinha solução até chegar um médico e acabar com tudo, ao dizer que a poliomielite era irreversível. Aquelas palavras duras marcaram minha vida. Alguns médicos precisam ter mais sensibilidade para falar com o paciente. Por mais duro que seja o diagnóstico, é preciso cuidado. Você pode acabar com o sonho de alguém em míseros segundos. Foi aí que decidi pesquisar sobre tudo”, explica.

Em 2004, José de Arimatéia fez cirurgia de correção do joelho que estava atrofiando. Por conta da paralisia infantil, ele não consegue mexer a perna direita e a esquerda tem movimentos limitados. “Desde sempre usei muleta e mesmo com a minha deficiência sempre fiz tudo o que quis, afinal, a gente aprende com o tempo a se virar. Na adolescência talvez tenha pesado um pouco mais, mas eu nunca me privei de absolutamente nada. Me divertia, andava de bicicleta, skate.”

Em 2006, passou por outra cirurgia desta vez na perna. Usou aparelho – espécie de gaiola – por um ano e meio para corrigir a atrofia. Processo lento que intensificou dores físicas e emocionais. Sem trabalhar, seu filho estava prestes a nascer e o estresse daquele momento só aumentava, mas a única preocupação era conseguir segurá-lo no colo. E ele conseguiu.

Por oito meses fez fisioterapia e hidroterapia, e foi caminhando com o tratamento. “Por anos troquei experiências com pessoas com problemas semelhantes ao meu. A minha deficiência existe porque eu a vejo. Sempre batalhei por tudo como uma pessoa qualquer. Eu nunca me incomodei com isso. No âmbito profissional, quando passava em algum processo, eu sabia que era qualificado para a vaga. Toda uma questão de mérito, esforço e dedicação.”

Sua opinião mudou até trabalhar em uma empresa de grande porte como PCD – a primeira experiência que teve e a pior até hoje, segundo ele – por sentir de perto o preconceito e discriminação. “Certa resistência entre as pessoas por causa da lei de cotas, me fez sentir muito mal, é algo totalmente velado na forma de tratar o outro. Isso me incomodou profundamente, todo mundo que tem deficiência –  ou não –  deve ser respeitado como qualquer outro indivíduo. Fato é que o preconceito ainda é enorme e não se restringe apenas às pessoas com deficiência”, lamenta.  

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